Audio Track
[Intro – riffs crus, batida seca, contralto em sombra]
[guitarras fuzz proto metal, garagem suja, andamento de marcha][Verso 1 – voz grave, firme]
Cavalo negro corta a poeira da rua
Balança na mão, pesa o grão e a culpa
Pão contado, suor virando moeda
Barriga canta, mercado que se nega[Pré-refrão – cresce bateria]
Se a balança mente, eu mordo a corrente
Se o preço sobe, eu ergo o dente
Dia inteiro por um punhado de trigo
Quem vende a fome vai me ter como inimigo[Refrão – coro rouco, guitarras abertas]
Eu sou o Terceiro, peso o mundo em aço
Mas quando a fome manda, eu quebro o laço
Cavalo negro, trovoada na minha mão
Reviro o prato e reparto o pão[Verso 2 – contralto mais áspera]
Feiras vazias, vitrines cheias
Cifras gordas, costelas alheias
O som que estala é povo em jejum
A balança treme, eu não calo nenhum[Pré-refrão – palhetada seca]
Quem planta fome colhe o levante
Meu passo é grave, meu grito é flamejante
Se é caro o trigo, que caia a muralha
Se é curto o prato, que sobre a batalha[Refrão – mais denso]
Eu sou o Terceiro, peso o mundo em aço
Mas quando a fome manda, eu quebro o laço
Cavalo negro, trovoada na minha mão
Reviro o prato e reparto o pão[Ponte – meio-tempo, tensão]
Trago a medida, sim, mas mudo o peso
Viro o prato, desfaço o desprezo
Não poupem o luxo do vinho e do azeite
Guardem a vida, dividam o leite[Solo – guitarra fuzz, bends longos, eco de garagem]
[Breakdown – só bateria e baixo, voz em estalo]
Hei, pesa direito!
Conta o respeito!
Hei, corta o efeito
Do preço perfeito[Refrão – todos juntos, grave e amplo]
Eu sou o Terceiro, peso o mundo em aço
Mas quando a fome manda, eu quebro o laço
Cavalo negro, trovoada na minha mão
Reviro o prato e reparto o pão[Outro – fading, harmônicos sujos]
Quando o céu for cobre, cai a ilusão
Cai a corrente, cai o patrão
Ferro no chão, some o ladrão
Silêncio mastiga o pão da revolução
Em O Terceiro, parte da série Os Quatro Cavaleiros, a letra convoca a imagem do cavalo negro e da balança não como mero presságio, mas como instrumento de confronto. O eu lírico encarna a fome medida a moedas e denuncia a especulação que poupa o luxo e devora o povo. Entre feiras vazias e vitrines cheias, a canção transforma ícones apocalípticos em metáforas de desigualdade, convertendo o peso da balança em gatilho de levante. O refrão, que alterna entre a afirmação identitária do Terceiro e o gesto de repartir o pão, reescreve o signo da carestia como insubordinação ética.
A estética proto metal e o espírito garage roqueiro alimentam a rebeldia do texto com riffs crus e batida seca, enquanto uma voz contralto, de timbre rico e sem sibilância, impõe gravidade e carne às imagens. A arcada emocional vai da constatação do aperto e da mentira dos preços à virada de prato: da medida imposta ao peso reinventado. O resultado é um hino áspero e imagético, onde o apocalipse funciona menos como fim e mais como revelação do que precisa ruir para que o pão volte à mesa.